O TDAH e o Paradigma da Educação – Psicologia Corporal

O TDAH e o Paradigma da Educação

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Texto baseado no vídeo: “Mudando o Paradigma da Educação”

 

Inicialmente, lancemos um olhar para a grande ruptura ocorrida na modernidade e um redirecionamento de novas expectativas e projeções em direção a um futuro promissor. O ideal das Luzes projetava um futuro justo, pacífico, amparado nos avanços tecnológicos e científicos, na disparada da industrialização e na nobre razão.

 

O rompimento com as estruturas tradicionais de conhecimento e crenças, poderia ter dotado o Homem da razão de uma maior autonomia, liberdade e individualidade.

 

Porém, durante o século XX, com as duas grandes e guerras e profundas crises econômicas, o que se verificou foi que o sonho das Luzes caíra por terra. A razão é rebaixada como instrumento de dominação, poder e subjugação. As projeções otimistas de um futuro que iria aliviar de vez o sofrimento humano, dão lugar ao descrédito. A disciplina entra para a escravização do ser humano. Através dos sistemas de vigilância, sanções normatizadoras e técnicas de avaliação, o que se propunha era transformar esse Homem numa peça padronizada e robotizada, útil ao sistema.

 

O modelo educacional existente naquela época – que preparava a formação de “pessoas em série”, aptas a trabalhar roboticamente nas fábricas -,  é examente a base do modelo que utilizamos nos tempos atuais. 

 

Em pleno século XXI, arcaicos paradigmas de educação insistem em engessar a inteligência humana nos mesmos moldes da revolução industrial, preparando os indivíduos para um mundo que não existe mais.

 

É como se tentássemos adentrar ao futuro, mas utilizando ferramentas do passado.

 

O fato é que o modelo mental de inteligência iluminista já não nos serve mais. Sabemos inclusive aonde o iluminismo nos levou.

 

Estamos vivendo um período ímpar da história da humanidade, de intensa estimulação sensorial. Enquadrar as pessoas num modelo educacional do século XIX é como se colocássemos a inteligência do indivíduo contemporâneo numa camisa de força, tentando anestesiar seus estímulos e demarcar sua consciência.

 

O resultado disso pode estar se evidenciando na incidência de casos e mais casos de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e na chatice que está se convertendo uma sala de aula, onde grande parte dos alunos está navegando nos seus iphones.

 

Para entendermos melhor onde estamos e como chegamos até o presente momento sócio-histórico, vamos fazer uma breve passagem por algumas faces da modernidade.

 

Na face pós-moderna, vamos encontrar um ser humano mais individualizado, mais autônomo. Com a quebra dos valores e das estruturas tradicionais, os indivíduos poderiam seguir caminhos diversos, não pré-estabelecidos. Havia uma certa afirmação do individual sobre o coletivo. Talvez a pós-modernidade tenha permitido a realização de alguns ideais das Luzes que a modernidade exaltava. As formas de controle adaptavam-se de uma forma mais sutil e menos disciplinadora, através da conscientização e do aliciamento dos desejos. Criando-se cada vez mais necessidades, coloca-se esse indivíduo autônomo,  mais dependente.

 

Através da conscientização, mais autocontrole e subjugação, com a ironia de se ter o máximo de possibilidades de escolhas privadas. Caracteriza-se pelo aumento da produção industrial, que com o desenvolvimento dos meios de transportes e da tecnologia da comunicação, expande o consumo em massa, que inicialmente limitava-se à burguesia, posteriormente, numa segunda fase, passou a atingir uma maior parte da população.

 

Se o passado e o futuro se desvanecem, resta portanto o presente. Um presente que emerge através da apreciação das novidades que apresenta. Apreciar essas novidades e poder gozá-las e usufruí-las era o intento desse indivíduo narcísico hedonista.

 

Segundo alguns autores, seguindo-se a face pós-moderna,  a humanidade entraria no tempo do híper: hiperconsumo; hipernarcisismo; enfim, numa hipermodernidade. Fase de maior fluidez, movimento incessante (a vida é movimento puro, sem parar), flexibilidade . Uma realidade multidimensional.

 

E por que não falar de hiperestímulos e de hiperatividade?

 

A questão que nos ocorre, é exatamente como adaptar o modelo de ensino atual, que remonta ao século XIX, a essa hipermodernidade, e a esses indivíduos hipermodernos, hiperestimulados e hiperativos ?

 

Estava em cartaz no Teatro Casa Grande no Leblon uma peça (performance) denominada de “Hiperatividade”. Essa peça conta com um único ator que durante uma hora e meia fala com grande rapidez sobre diversos assuntos em quase superposição. Casa lotada. Sucesso de público. Isso só poderia estar ocorrendo na hipermodernidade, não é mesmo?

 

O vídeo “Mudando o Paradigma da Educação”,  traz a questão do pensamento divergente. Essa forma de pensar também não parece uma expressão típica da hipermodernidade? Quanto mais respostas pudermos enxergar para uma questão, ou quantas mais formas de interpretarmos uma pergunta, mas ajustados estaremos à nossa época.

 

Enfim, se o modelo ultrapassado de ensino, ainda existe como substrato da educação dos dias de hoje, será que toda essa estrutura não passa de uma camisa de força, inibindo o pensar divergente, e , portanto, a criatividade do indivíduo contemporâneo?

 

Portanto, será que esse modelo engessado de ensino, pode estar contribuindo, juntamente com inúmeros outros fatores,  socio-históricos, ontogenéticos e filogenéticos, para transformarmos pessoas criativas em pessoas doentes, classificadas como TDAH?

 

É bem verdade, que se faz necessário a criação urgente de um novo modelo de educação que se ajuste melhor ao indivíduo hipermoderno.

 

E nós, profissionais da área da saúde e de doenças mentais, precisamos lançar um olhar mais abrangente sobre as novas formas que o organismo humano está encontrando para expressar suas questões, respondendo aos estímulos e às demandas, de um momento sempre tão singular e tão único: a vida aqui e agora.

Alexandre J. Paiva
Alexandre J. Paiva
Psicólogo CRP 5/49933 Especializado em Psicoterapia Corporal com atendimento clínico (PRESENCIAL ou via SKYPE) sob a vertente de Wilhelm Reich. Trabalha orientado também pela visão da Experiência Somática de Peter Levine.

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